A advogada da Liga Moçambicana dos Direitos Humanos, Nadja Remane Gomes, esteve na Casa Branca, no passado dia 2 de Agosto, num encontro promovido pelo Presidente dos EUA com jovens líderes africanos da sociedade civil, e foi uma das dez escolhidas para colocar uma questão a Barack Obama.
“Estávamos todos com as mãos levantadas e ele (Obama) ia fazendo a selecção, tendo em conta o género, um homem, uma mulher. Calhou-me ser uma das suas escolhas”, conta emocionada Nadja Gomes, a jovem moçambicana que perguntou ao Presidente americano que lições daria aos jovens líderes para despromover a violência.
Nadja Remane Gomes, de 29 anos, não hesitou e apesar da “emoção e ansiedade” formulou uma longa pergunta em português: “Sendo a América reconhecida como um marco de referência na história da democracia, e sendo o presidente Obama um dos precursores dessa democracia na actualidade, face à realidade africana em que, embora existam instrumentos jurídicos nacionais e internacionais de protecção dos direitos fundamentais, os princípios democráticos são sucessivas vezes violados, as eleições não são transparentes, justas e livres, ocorrendo muitas vezes elevados índices de abstenções, alterações das constituições para os governantes se perpetuarem no poder, não há sistemas eficientes de fiscalização da gestão da coisa pública, o que acaba culminando em tensões políticas e sociais, nesse contexto, quais seriam as lições ou estratégias que o senhor presidente recomendaria aos jovens líderes e às organizações da sociedade civil para advogar pela mudança e respeito dos princípios democráticos e direitos humanos, de forma pacífica, despromovendo a violência?”
A jovem confessa que tinha várias perguntas pensadas, mas no momento saiu aquela: “Nestes momentos, há sempre uma emoção e ansiedade enormes. Temos a pergunta na cabeça, às vezes mesmo escrita, mas acaba por não ser exactamente aquela que fazemos. No meu caso, tinha várias perguntas na cabeça. Depois havia ainda a questão da língua. Não sabia se devia falar em inglês ou em português, mas como vi os anteriores a falar nas suas línguas resolvi perguntar em português”.
A resposta de Obama foi igualmente longa. Nadja sabe de cor os pontos principais: “Não se pode separar a política da economia, nem o conflito do desenvolvimento. E os conflitos constantes, muitas das vezes assentes em questões étnicas, prejudicam profundamente o desenvolvimento do continente. Se existirem conflitos, isso afugenta os investidores, o que torna mais difícil para os empresários criarem oportunidades, privando assim os jovens de emprego, tornando-os mais propensos a serem recrutados para tomarem parte em conflitos de carácter violento. Apelo ainda à necessidade da integração plena das mulheres na sociedade, à alternância do poder, evitando alterações constitucionais e visando a eternização dos regimes políticos”.
Cristóvão Araújo
16-08-2010