A poetisa e nacionalista moçambicana Noémia de Sousa foi, esta terça-feira, homenageada a título póstumo no Centro Cultural Franco- Moçambicano, em Maputo.
“Deram-me 10 minutos para falar da Noémia de Sousa. Vou respeitar esse período porque isto não é uma aula”, começou por dizer o académico, jornalista, escritor e intelectual Calane da Silva.
Mas que voz é esta de Noémia de Sousa? “Foi a primeira voz da literatura moçambicana, no feminino, a mostrar a verdadeira face deste país à beira Índico”, começou por referir Calane. Para, em seguida, traçar uma rápida biografia: “Noémia não nasceu na Mafalala, veio ao mundo do outro lado, na Catembe. Só mais tarde é que veio habitar a mítica casa grande da Mafalala.”
“Muito cedo Noémia percebeu que a realidade era muito mais cruel do que aquela que lia nos livros que lhe chegavam clandestinamente. Calane lembrou ainda que à sua casa todos eram bem-vindos. “Ali ela acolhia moçambicanos de todas as epidermes: brancos, asiáticos, negros, mestiços. Muitos juntaram-se ali e ali constituíram grupos de militantes para lutar pela independência do país.”
Antes da intervenção de Calane da Silva, já tinha passado numa tela gigante o filme de autoria de Camila de Sousa – sobrinha-neta de Noémia – inserido no projecto Mafalala Blues centrado na figura de Noémia e em histórias daquela casa mítica. "A minha ligação a ela [Noémia] está aqui, contei-a através deste filme e desta instalação, porque não sabia fazê-lo de outra forma", referiu Camila.
Em 1951, Noémia auto-exila-se em Lisboa, “não porque queira lá ficar, mas porque a PIDE não a queria aqui. Ela aqui despertava muitas consciências à sua volta por isso era preciso retirá-la daqui”, diz Calane. E acrescenta: “A sua presença em Moçambique seria o ponto de luz na escuridão que aqui se manifestava.” Assim, Noémia foi empurrada para Lisboa, seguindo posteriormente para Paris, regressando à capital portuguesa pouco antes de revolução de 25 de Abril quando a ‘primavera marcelista’ permitiu o regresso de muitos exilados.
Já após a independência, a casa grande Mafalala continuou a ser muito frequentada. “Era lá que fazíamos as nossas festas ao fim-de-semana, onde declamávamos poemas da Noémia, do Craveirinha e os nossos próprios poemas”, recorda Calane. E prossegue: “Foi naquela casa que fizemos a despedida clandestina do Camilo que saiu dali para se juntar à Frelimo, continuando a saga daquela família, que é uma família que se alarga a todo o bairro da Mafalala. Aliás, Noémia dizia: ‘Ah! Deixa passar o meu povo.’ E foi por aquela casa que o povo passou, porque ela abriu caminhos para que aquele povo passasse por ali”, referiu Calane que terminou com uma citação de outro poeta, Rui Knopfli, a propósito de Noémia: “Foi a voz que abriu a picada por onde depois todos nós passámos.”
Veja as fotos da festa de homenagem a Noémia de Sousa
11 de Agosto de 2010